Há duas tentações que acompanham o homem com uma fidelidade quase constrangedora, o prazer e o poder, não porque sejam maus, pois seria fácil demais resolver o problema se o mal viesse sempre vestido de mal, mas justamente porque são bens, e os bens, quando retirados de seu lugar, conseguem desordenar uma alma com uma eficiência que o mal declarado dificilmente alcançaria.
O prazer promete satisfação, o poder promete domínio, um diz ao homem, toma para ti, o outro, faz com que os outros se curvem a ti, e entre possuir aquilo que deseja e conseguir que a realidade obedeça à sua vontade, o homem pode atravessar uma vida inteira sem perceber a ironia de que, enquanto imaginava governar, era governado.
É por isso que toda reflexão séria sobre autoridade deveria começar não pelo Estado, pelas instituições ou pelas técnicas de liderança, mas por uma pergunta muito menos confortável, quem governa aquele que governa?
Porque governantes existem em toda parte, governa o político, certamente, mas governa também o pai quando estabelece a ordem de sua casa, a mãe quando conduz seus filhos, o professor quando forma inteligências, o sacerdote quando recebe almas aos seus cuidados, o empresário quando decide sobre pessoas e recursos, pois sempre que alguém recebe alguma parcela de autoridade sobre o bem de outro, ali existe governo.
Mas há um governo anterior a todos esses, silencioso, cotidiano, sem palácios, títulos ou cerimônias e talvez por isso mesmo tão esquecido, o governo da própria alma, porque antes de governar uma casa é preciso governar a ira, antes de conduzir um filho é preciso aprender a contrariar os próprios desejos, antes de corrigir um aluno é preciso vigiar a própria vaidade, antes de receber autoridade é preciso desconfiar do prazer secreto de possuí-la.
O homem que não governa a si mesmo não deixa de ser governado, apenas muda de senhor, hoje será o prazer, amanhã a ira, depois a necessidade de aprovação, o medo, a vaidade, a sensualidade ou o ressentimento, e ainda poderá apresentar-se diante dos outros como homem livre, talvez até como líder, sem perceber a ironia de comandar dezenas enquanto não consegue dizer não a si mesmo.
É aqui que as virtudes deixam de parecer ornamentos de almas piedosas e revelam aquilo que realmente são, princípios de ordem interior, pois a temperança não declara guerra ao prazer, faz algo muito mais difícil, coloca-o em seu lugar, ensina ao homem que sentir um desejo não cria uma ordem, que poder satisfazê-lo não cria um dever e que renunciar a um prazer inferior pode ser justamente o preço para permanecer disponível a um bem maior.
A fortaleza, por sua vez, ensina a permanecer quando o bem deixou de ser agradável, porque qualquer homem parece virtuoso enquanto dever e prazer caminham juntos, mas é quando se separam, quando fazer o correto custa, quando ninguém aplaude e o caminho mais fácil se oferece quase educadamente diante de nós, que descobrimos quem de fato governa.
A justiça obriga aquele que possui poder a recordar uma verdade incômoda, aquilo que lhe foi confiado não lhe pertence absolutamente, o filho não existe para realizar a vaidade do pai, o aluno não existe para confirmar a inteligência do professor, a comunidade não existe para alimentar a importância do líder, porque a autoridade não transforma pessoas em instrumentos daquele que governa, transforma aquele que governa em responsável pelo bem das pessoas que lhe foram confiadas.
E acima dessas virtudes práticas encontra-se a prudência, não aquela cautela medrosa que às vezes recebe indevidamente esse nome, mas a reta razão aplicada à ação, a inteligência suficientemente submetida à realidade para perguntar, antes de agir, não o que desejo fazer, não o que me fará parecer forte, nem sequer o que me conservará no poder, mas o que deve ser feito.
Talvez seja essa a tragédia de tantos governos, grandes e pequenos, queremos organizar o mundo antes de organizar aquele que o organiza, queremos filhos disciplinados conduzidos por pais incapazes de contrariar a si mesmos, alunos responsáveis educados por adultos dependentes de aprovação, instituições justas governadas por homens sedentos de reconhecimento, comunidades ordenadas dirigidas por pessoas cuja vida interior permanece um território sem governo, e depois nos espantamos com o caos exterior, quando talvez o caos apenas tenha aprendido a sair de casa.
Porque toda desordem coletiva foi, em algum momento, uma possibilidade acolhida dentro de alguma alma, o pai dominado pela ira chamará sua violência de autoridade, o professor dominado pela vaidade chamará sua necessidade de aplauso de proximidade com os alunos, o líder apaixonado pelo poder chamará controle de responsabilidade, o homem escravizado pelo prazer chamará seus apetites de liberdade, porque os vícios possuem essa habilidade quase perversa de raramente se apresentarem com seus nomes verdadeiros.
É por isso que o homem precisa das virtudes, não para deixar de sentir, não para tornar-se frio, não para matar os desejos, mas para impedir que aquilo que deveria servi-lo passe a governá-lo.
E então chegamos ao paradoxo cristão, talvez incompreensível para toda concepção de poder que não tenha passado pela Cruz, porque Cristo possui autoridade e não precisa afirmá-la, é Senhor e ajoelha-se, é Mestre e lava pés, poderia ser servido e escolhe servir, não porque tenha deixado de ser maior, mas porque revela que a verdadeira grandeza não precisa diminuir o outro para permanecer grande.
Cristo não destrói a autoridade quando toma a toalha e a bacia, revela sua finalidade, quem está acima recebeu mais para poder servir mais, quem possui força deve proteger, quem conhece deve ensinar, quem governa deve conduzir, quem recebeu muito deverá responder por muito, e assim o poder deixa de ser oportunidade para a expansão do próprio ego e passa a ser responsabilidade pelo bem alheio.
Talvez por isso o maior perigo de um governante não esteja primeiramente nos inimigos que o cercam, mas nos desejos que o habitam, porque um homem pode vencer adversários e perder para a própria vaidade, pode administrar uma cidade e não administrar a própria ira, pode conduzir milhares e ser conduzido pelo prazer, pode ocupar o primeiro lugar entre os homens e continuar escravo daquilo que existe de mais baixo dentro de si.
Antes da ordem da cidade, portanto, a ordem da alma, antes da disciplina dos filhos, a disciplina dos pais, antes da formação dos alunos, a formação dos professores, antes da santificação dos fiéis, a vida interior daqueles que os conduzem, e antes de perguntar quantas pessoas me obedecem talvez seja necessário fazer uma pergunta bem mais difícil, a quem eu obedeço quando ninguém está olhando?
É aí que poder e prazer encontram seu limite, não na destruição de ambos, mas em sua submissão à ordem, o prazer permanece um bem, mas já não é senhor, o poder permanece necessário, mas já não é propriedade, a inteligência reconhece o bem, a prudência encontra os meios, a vontade escolhe, a fortaleza sustenta, a temperança contém, a justiça ordena e a caridade eleva tudo isso para além do simples domínio de si.
Porque o cristianismo não termina no homem que aprendeu a governar perfeitamente a própria alma, isso ainda seria pouco, o homem aprende a governar-se para finalmente poder entregar o governo a Deus, e talvez esteja aí a diferença definitiva entre ordem e dominação, o tirano deseja que todos se submetam a ele, enquanto o homem virtuoso começa submetendo a si mesmo à Verdade.
Só então estará verdadeiramente preparado para conduzir alguém, porque quem não governa a si mesmo usará o poder para servir aos próprios desejos, quem ordena a própria alma poderá usar sua força para servir ao bem daqueles que lhe foram confiados e quem finalmente se deixa governar por Deus descobre, talvez depois de tanto querer permanecer de pé diante dos homens, que toda autoridade verdadeira começa de joelhos.

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