Há nas ideologias uma tentação antiga, embora costume apresentar-se com roupas novas: antes de oferecer ao homem um mundo diferente, é conveniente convencê-lo de que aquilo que recebeu não merece confiança, e começa-se então pelas palavras, porque destruir uma coisa é sempre mais fácil depois de destruir o seu nome. A família torna-se suspeita, a autoridade recebe o nome de opressão, a disciplina passa a chamar-se repressão, a regra é denunciada como arbitrariedade e a tradição, talvez a mais incômoda de todas, é reduzida a atraso, como se os mortos nada tivessem a ensinar aos vivos e como se tivéssemos sido nós, justamente nós, a primeira geração suficientemente inteligente para compreender o homem.
Não é por acaso.
Um homem que desconfia de tudo aquilo que recebeu torna-se extraordinariamente disponível para receber aquilo que lhe quiserem oferecer. Retire-lhe a tradição e perderá parte da memória; enfraqueça-lhe a disciplina e sua vontade terá cada vez menos domínio sobre os próprios apetites; desautorize toda autoridade e logo ele já não saberá distinguir obediência de servidão; fragilize a família e terá perdido o primeiro lugar onde aprendeu, antes mesmo de saber que aprendia, que não nasceu de si, não pertence somente a si e não pode fazer de si a medida de todas as coisas.
Depois chamaremos isso de liberdade.
Provavelmente esteja aí uma das ironias mais cruéis do nosso tempo: o homem pode julgar-se livre justamente quando se tornou mais fácil conduzi-lo, porque aquele que perdeu as raízes não permanece suspenso no ar, à espera de decidir racionalmente onde deseja plantá-las; será levado pelo vento mais forte, pela propaganda mais eficiente, pelo desejo mais imediato, pela ideologia mais sedutora, e ainda poderá acreditar que cada movimento seu nasceu exclusivamente de sua própria vontade.
É contra isso que me posiciono.
Não contra a mudança, porque há coisas que precisam mudar. Não contra a crítica, porque há tradições humanas que precisam ser examinadas. Não contra a liberdade, porque sem liberdade não existe propriamente vida moral.
Uma regra injusta deve ser corrigida, um costume contrário ao bem deve ser abandonado, uma autoridade que trai sua finalidade deve ser chamada à responsabilidade. A tradição não santifica o erro simplesmente porque o erro envelheceu.
Mas existe uma distância imensa entre corrigir aquilo que recebemos à luz da Verdade e destruir aquilo que recebemos porque nossa vontade não suporta encontrar diante de si algo que não criou. É dessa diferença que quase não se fala.
Defendo, portanto, algo anterior à própria regra, anterior à disciplina e anterior à tradição: a existência de uma ordem que não depende da nossa vontade para existir.
O real veio antes da nossa opinião sobre ele; A natureza veio antes da nossa teoria; O bem não começou quando passamos a desejá-lo; E a verdade não aguarda nosso consentimento para tornar-se verdadeira.
1. É precisamente por isso que a disciplina importa.
Ela recorda à vontade uma verdade que o homem contemporâneo prefere esquecer: nem tudo aquilo que desejo me convém, nem tudo aquilo que posso fazer devo fazer, nem todo impulso merece transformar-se em escolha e, muito menos, em direito. Disciplinar-se é ensinar à vontade que ela é uma potência extraordinária, mas não é Deus.
2. É por isso que a família importa.
Nela o homem recebe uma das primeiras lições de metafísica sem jamais ouvir essa palavra: antes de poder dizer “eu”, já existiam outros. Alguém o gerou, alguém o alimentou, alguém lhe deu um nome, uma língua, uma história, uma casa, e assim a própria existência lhe anuncia, desde o princípio, uma verdade desagradável à autorreferência: você não é causa de si mesmo.
3. E é por isso, finalmente, que a tradição importa.
Tradição não é ajoelhar-se diante das cinzas do passado, mas conservar o fogo. É receber aquilo que outros descobriram, provaram, sofreram, corrigiram e transmitiram, submetê-lo novamente à verdade e entregá-lo aos que virão depois, talvez mais purificado do que quando chegou às nossas mãos.
A civilização não deveria precisar recomeçar a cada nascimento.
Um filho deveria poder começar sua subida alguns degraus acima porque seu pai não arrancou a escada depois de subir. Uma geração verdadeiramente magnânima não obriga a seguinte a descobrir novamente aquilo que ela recebeu gratuitamente.
E é justamente aqui que a ideologia se torna perigosa, seja qual for sua cor, seu partido ou o lado do plenário onde se senta. Torna-se perigosa quando deixa de oferecer uma interpretação da realidade e passa a exigir que a realidade seja corrigida até concordar com a interpretação. Já não é a teoria que deve curvar-se diante do real.
É a família que precisa caber na teoria, a educação precisa caber na teoria, a linguagem precisa caber na teoria, a natureza precisa caber na teoria.
E, se o próprio homem insistir em não caber, pior para o homem: haverá de ser reconstruído.
A tradição faz uma pergunta muito mais humilde: O que havia aqui antes de mim?
Depois outra: - Por que permaneceu?
Outra: - Que bem descobriram aqueles que o conservaram?
Finalmente, antes de empunhar o machado:
- Compreendo suficientemente esta árvore para saber o que acontecerá depois que eu cortar suas raízes?
Talvez seja justamente essa pergunta que nossa época tenha desaprendido a fazer, pois podar exige prudência, agora arrancar exige apenas força.
Podemos corrigir injustiças, aperfeiçoar instituições, abandonar erros, purificar costumes e transmitir melhor aquilo que recebemos. Devemos fazê-lo. Uma tradição viva não é uma peça de museu.
Mas uma coisa é podar a árvore para que produza frutos melhores; outra, muito diferente, é arrancá-la porque desenhamos no papel uma árvore mais bonita e, apaixonados pelo desenho, começamos a sentir raiva da árvore real por ela insistir em possuir raízes, galhos e limites que nossa imaginação não autorizou.
Por isso quero posicionar-me de forma clara!
Contra a vontade que pretende tornar-se medida da verdade, a ordem.
Contra o impulso promovido à condição de liberdade, a disciplina.
Contra a amnésia que se apresenta orgulhosamente como progresso, a tradição.
Contra toda ideologia que precisa reconstruir o homem para fazê-lo caber em suas categorias, a realidade da natureza humana.
E, para o cristão, acima da tradição, acima da disciplina, acima da autoridade e acima de qualquer instituição humana, permanece uma medida que nenhuma delas pode substituir:
Cristo.
É precisamente isso que impede nossa defesa da tradição de tornar-se farisaísmo.
A tradição não é a Verdade. A disciplina não é o Bem último. A autoridade não é Deus. A família não é um absoluto.
Todas essas realidades são boas enquanto permanecem ordenadas àquilo que as transcende. E justamente porque existe uma Verdade acima delas podemos julgar seus desvios, corrigir seus abusos, purificar aquilo que se corrompeu e conservar aquilo que continua verdadeiro.
Não precisamos destruir as raízes para sermos livres. Precisamos exatamente do contrário:
humildade suficiente para reconhecer que chegamos tarde a um mundo que já possuía uma ordem, inteligência suficiente para compreendê-la, prudência para corrigir o que nela houver de acidental e disciplina para não destruir, em nome de uma liberdade sem medida, aquilo que só descobriremos ser indispensável quando já não estiver mais lá.

Uau!
ResponderExcluirPerfeito
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