quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Antes de governar o mundo

 

Há duas tentações que acompanham o homem com uma fidelidade quase constrangedora, o prazer e o poder, não porque sejam maus, pois seria fácil demais resolver o problema se o mal viesse sempre vestido de mal, mas justamente porque são bens, e os bens, quando retirados de seu lugar, conseguem desordenar uma alma com uma eficiência que o mal declarado dificilmente alcançaria.

O prazer promete satisfação, o poder promete domínio, um diz ao homem, toma para ti, o outro, faz com que os outros se curvem a ti, e entre possuir aquilo que deseja e conseguir que a realidade obedeça à sua vontade, o homem pode atravessar uma vida inteira sem perceber a ironia de que, enquanto imaginava governar, era governado.

É por isso que toda reflexão séria sobre autoridade deveria começar não pelo Estado, pelas instituições ou pelas técnicas de liderança, mas por uma pergunta muito menos confortável, quem governa aquele que governa?

Porque governantes existem em toda parte, governa o político, certamente, mas governa também o pai quando estabelece a ordem de sua casa, a mãe quando conduz seus filhos, o professor quando forma inteligências, o sacerdote quando recebe almas aos seus cuidados, o empresário quando decide sobre pessoas e recursos, pois sempre que alguém recebe alguma parcela de autoridade sobre o bem de outro, ali existe governo.

Mas há um governo anterior a todos esses, silencioso, cotidiano, sem palácios, títulos ou cerimônias e talvez por isso mesmo tão esquecido, o governo da própria alma, porque antes de governar uma casa é preciso governar a ira, antes de conduzir um filho é preciso aprender a contrariar os próprios desejos, antes de corrigir um aluno é preciso vigiar a própria vaidade, antes de receber autoridade é preciso desconfiar do prazer secreto de possuí-la.

O homem que não governa a si mesmo não deixa de ser governado, apenas muda de senhor, hoje será o prazer, amanhã a ira, depois a necessidade de aprovação, o medo, a vaidade, a sensualidade ou o ressentimento, e ainda poderá apresentar-se diante dos outros como homem livre, talvez até como líder, sem perceber a ironia de comandar dezenas enquanto não consegue dizer não a si mesmo.

É aqui que as virtudes deixam de parecer ornamentos de almas piedosas e revelam aquilo que realmente são, princípios de ordem interior, pois a temperança não declara guerra ao prazer, faz algo muito mais difícil, coloca-o em seu lugar, ensina ao homem que sentir um desejo não cria uma ordem, que poder satisfazê-lo não cria um dever e que renunciar a um prazer inferior pode ser justamente o preço para permanecer disponível a um bem maior.

A fortaleza, por sua vez, ensina a permanecer quando o bem deixou de ser agradável, porque qualquer homem parece virtuoso enquanto dever e prazer caminham juntos, mas é quando se separam, quando fazer o correto custa, quando ninguém aplaude e o caminho mais fácil se oferece quase educadamente diante de nós, que descobrimos quem de fato governa.

A justiça obriga aquele que possui poder a recordar uma verdade incômoda, aquilo que lhe foi confiado não lhe pertence absolutamente, o filho não existe para realizar a vaidade do pai, o aluno não existe para confirmar a inteligência do professor, a comunidade não existe para alimentar a importância do líder, porque a autoridade não transforma pessoas em instrumentos daquele que governa, transforma aquele que governa em responsável pelo bem das pessoas que lhe foram confiadas.

E acima dessas virtudes práticas encontra-se a prudência, não aquela cautela medrosa que às vezes recebe indevidamente esse nome, mas a reta razão aplicada à ação, a inteligência suficientemente submetida à realidade para perguntar, antes de agir, não o que desejo fazer, não o que me fará parecer forte, nem sequer o que me conservará no poder, mas o que deve ser feito.

Talvez seja essa a tragédia de tantos governos, grandes e pequenos, queremos organizar o mundo antes de organizar aquele que o organiza, queremos filhos disciplinados conduzidos por pais incapazes de contrariar a si mesmos, alunos responsáveis educados por adultos dependentes de aprovação, instituições justas governadas por homens sedentos de reconhecimento, comunidades ordenadas dirigidas por pessoas cuja vida interior permanece um território sem governo, e depois nos espantamos com o caos exterior, quando talvez o caos apenas tenha aprendido a sair de casa.

Porque toda desordem coletiva foi, em algum momento, uma possibilidade acolhida dentro de alguma alma, o pai dominado pela ira chamará sua violência de autoridade, o professor dominado pela vaidade chamará sua necessidade de aplauso de proximidade com os alunos, o líder apaixonado pelo poder chamará controle de responsabilidade, o homem escravizado pelo prazer chamará seus apetites de liberdade, porque os vícios possuem essa habilidade quase perversa de raramente se apresentarem com seus nomes verdadeiros.

É por isso que o homem precisa das virtudes, não para deixar de sentir, não para tornar-se frio, não para matar os desejos, mas para impedir que aquilo que deveria servi-lo passe a governá-lo.

E então chegamos ao paradoxo cristão, talvez incompreensível para toda concepção de poder que não tenha passado pela Cruz, porque Cristo possui autoridade e não precisa afirmá-la, é Senhor e ajoelha-se, é Mestre e lava pés, poderia ser servido e escolhe servir, não porque tenha deixado de ser maior, mas porque revela que a verdadeira grandeza não precisa diminuir o outro para permanecer grande.

Cristo não destrói a autoridade quando toma a toalha e a bacia, revela sua finalidade, quem está acima recebeu mais para poder servir mais, quem possui força deve proteger, quem conhece deve ensinar, quem governa deve conduzir, quem recebeu muito deverá responder por muito, e assim o poder deixa de ser oportunidade para a expansão do próprio ego e passa a ser responsabilidade pelo bem alheio.

Talvez por isso o maior perigo de um governante não esteja primeiramente nos inimigos que o cercam, mas nos desejos que o habitam, porque um homem pode vencer adversários e perder para a própria vaidade, pode administrar uma cidade e não administrar a própria ira, pode conduzir milhares e ser conduzido pelo prazer, pode ocupar o primeiro lugar entre os homens e continuar escravo daquilo que existe de mais baixo dentro de si.

Antes da ordem da cidade, portanto, a ordem da alma, antes da disciplina dos filhos, a disciplina dos pais, antes da formação dos alunos, a formação dos professores, antes da santificação dos fiéis, a vida interior daqueles que os conduzem, e antes de perguntar quantas pessoas me obedecem talvez seja necessário fazer uma pergunta bem mais difícil, a quem eu obedeço quando ninguém está olhando?

É aí que poder e prazer encontram seu limite, não na destruição de ambos, mas em sua submissão à ordem, o prazer permanece um bem, mas já não é senhor, o poder permanece necessário, mas já não é propriedade, a inteligência reconhece o bem, a prudência encontra os meios, a vontade escolhe, a fortaleza sustenta, a temperança contém, a justiça ordena e a caridade eleva tudo isso para além do simples domínio de si.

Porque o cristianismo não termina no homem que aprendeu a governar perfeitamente a própria alma, isso ainda seria pouco, o homem aprende a governar-se para finalmente poder entregar o governo a Deus, e talvez esteja aí a diferença definitiva entre ordem e dominação, o tirano deseja que todos se submetam a ele, enquanto o homem virtuoso começa submetendo a si mesmo à Verdade.

Só então estará verdadeiramente preparado para conduzir alguém, porque quem não governa a si mesmo usará o poder para servir aos próprios desejos, quem ordena a própria alma poderá usar sua força para servir ao bem daqueles que lhe foram confiados e quem finalmente se deixa governar por Deus descobre, talvez depois de tanto querer permanecer de pé diante dos homens, que toda autoridade verdadeira começa de joelhos.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Em defesa da Tradição e da Ordem.

Há nas ideologias uma tentação antiga, embora costume apresentar-se com roupas novas: antes de oferecer ao homem um mundo diferente, é conveniente convencê-lo de que aquilo que recebeu não merece confiança, e começa-se então pelas palavras, porque destruir uma coisa é sempre mais fácil depois de destruir o seu nome. A família torna-se suspeita, a autoridade recebe o nome de opressão, a disciplina passa a chamar-se repressão, a regra é denunciada como arbitrariedade e a tradição, talvez a mais incômoda de todas, é reduzida a atraso, como se os mortos nada tivessem a ensinar aos vivos e como se tivéssemos sido nós, justamente nós, a primeira geração suficientemente inteligente para compreender o homem.

Não é por acaso.

Um homem que desconfia de tudo aquilo que recebeu torna-se extraordinariamente disponível para receber aquilo que lhe quiserem oferecer. Retire-lhe a tradição e perderá parte da memória; enfraqueça-lhe a disciplina e sua vontade terá cada vez menos domínio sobre os próprios apetites; desautorize toda autoridade e logo ele já não saberá distinguir obediência de servidão; fragilize a família e terá perdido o primeiro lugar onde aprendeu, antes mesmo de saber que aprendia, que não nasceu de si, não pertence somente a si e não pode fazer de si a medida de todas as coisas.

Depois chamaremos isso de liberdade.

Provavelmente esteja aí uma das ironias mais cruéis do nosso tempo: o homem pode julgar-se livre justamente quando se tornou mais fácil conduzi-lo, porque aquele que perdeu as raízes não permanece suspenso no ar, à espera de decidir racionalmente onde deseja plantá-las; será levado pelo vento mais forte, pela propaganda mais eficiente, pelo desejo mais imediato, pela ideologia mais sedutora, e ainda poderá acreditar que cada movimento seu nasceu exclusivamente de sua própria vontade.

É contra isso que me posiciono.

Não contra a mudança, porque há coisas que precisam mudar. Não contra a crítica, porque há tradições humanas que precisam ser examinadas. Não contra a liberdade, porque sem liberdade não existe propriamente vida moral.

Uma regra injusta deve ser corrigida, um costume contrário ao bem deve ser abandonado, uma autoridade que trai sua finalidade deve ser chamada à responsabilidade. A tradição não santifica o erro simplesmente porque o erro envelheceu.

Mas existe uma distância imensa entre corrigir aquilo que recebemos à luz da Verdade e destruir aquilo que recebemos porque nossa vontade não suporta encontrar diante de si algo que não criou. É dessa diferença que quase não se fala.

Defendo, portanto, algo anterior à própria regra, anterior à disciplina e anterior à tradição: a existência de uma ordem que não depende da nossa vontade para existir.

O real veio antes da nossa opinião sobre ele; A natureza veio antes da nossa teoria; O bem não começou quando passamos a desejá-lo; E a verdade não aguarda nosso consentimento para tornar-se verdadeira.

1. É precisamente por isso que a disciplina importa. 

Ela recorda à vontade uma verdade que o homem contemporâneo prefere esquecer: nem tudo aquilo que desejo me convém, nem tudo aquilo que posso fazer devo fazer, nem todo impulso merece transformar-se em escolha e, muito menos, em direito. Disciplinar-se é ensinar à vontade que ela é uma potência extraordinária, mas não é Deus.

2. É por isso que a família importa. 

Nela o homem recebe uma das primeiras lições de metafísica sem jamais ouvir essa palavra: antes de poder dizer “eu”, já existiam outros. Alguém o gerou, alguém o alimentou, alguém lhe deu um nome, uma língua, uma história, uma casa, e assim a própria existência lhe anuncia, desde o princípio, uma verdade desagradável à autorreferência: você não é causa de si mesmo.

3. E é por isso, finalmente, que a tradição importa.

Tradição não é ajoelhar-se diante das cinzas do passado, mas conservar o fogo. É receber aquilo que outros descobriram, provaram, sofreram, corrigiram e transmitiram, submetê-lo novamente à verdade e entregá-lo aos que virão depois, talvez mais purificado do que quando chegou às nossas mãos.

A civilização não deveria precisar recomeçar a cada nascimento.

Um filho deveria poder começar sua subida alguns degraus acima porque seu pai não arrancou a escada depois de subir. Uma geração verdadeiramente magnânima não obriga a seguinte a descobrir novamente aquilo que ela recebeu gratuitamente.

E é justamente aqui que a ideologia se torna perigosa, seja qual for sua cor, seu partido ou o lado do plenário onde se senta. Torna-se perigosa quando deixa de oferecer uma interpretação da realidade e passa a exigir que a realidade seja corrigida até concordar com a interpretação. Já não é a teoria que deve curvar-se diante do real.

É a família que precisa caber na teoria, a educação precisa caber na teoria, a linguagem precisa caber na teoria, a natureza precisa caber na teoria.

E, se o próprio homem insistir em não caber, pior para o homem: haverá de ser reconstruído.

A tradição faz uma pergunta muito mais humilde: O que havia aqui antes de mim?

Depois outra: - Por que permaneceu?

Outra: - Que bem descobriram aqueles que o conservaram?

Finalmente, antes de empunhar o machado:

- Compreendo suficientemente esta árvore para saber o que acontecerá depois que eu cortar suas raízes?

Talvez seja justamente essa pergunta que nossa época tenha desaprendido a fazer, pois podar exige prudência, agora arrancar exige apenas força.

Podemos corrigir injustiças, aperfeiçoar instituições, abandonar erros, purificar costumes e transmitir melhor aquilo que recebemos. Devemos fazê-lo. Uma tradição viva não é uma peça de museu.

Mas uma coisa é podar a árvore para que produza frutos melhores; outra, muito diferente, é arrancá-la porque desenhamos no papel uma árvore mais bonita e, apaixonados pelo desenho, começamos a sentir raiva da árvore real por ela insistir em possuir raízes, galhos e limites que nossa imaginação não autorizou.

Por isso quero posicionar-me de forma clara!

Contra a vontade que pretende tornar-se medida da verdade, a ordem.

Contra o impulso promovido à condição de liberdade, a disciplina.

Contra a amnésia que se apresenta orgulhosamente como progresso, a tradição.

Contra toda ideologia que precisa reconstruir o homem para fazê-lo caber em suas categorias, a realidade da natureza humana.

E, para o cristão, acima da tradição, acima da disciplina, acima da autoridade e acima de qualquer instituição humana, permanece uma medida que nenhuma delas pode substituir:

Cristo.

É precisamente isso que impede nossa defesa da tradição de tornar-se farisaísmo.

A tradição não é a Verdade. A disciplina não é o Bem último. A autoridade não é Deus. A família não é um absoluto.

Todas essas realidades são boas enquanto permanecem ordenadas àquilo que as transcende. E justamente porque existe uma Verdade acima delas podemos julgar seus desvios, corrigir seus abusos, purificar aquilo que se corrompeu e conservar aquilo que continua verdadeiro.

Não precisamos destruir as raízes para sermos livres. Precisamos exatamente do contrário:

humildade suficiente para reconhecer que chegamos tarde a um mundo que já possuía uma ordem, inteligência suficiente para compreendê-la, prudência para corrigir o que nela houver de acidental e disciplina para não destruir, em nome de uma liberdade sem medida, aquilo que só descobriremos ser indispensável quando já não estiver mais lá.