segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Quando falta vinho à Terra de Santa Cruz.

Há momentos na história de um povo em que a maior tragédia não é a falta de pão, a escassez de recursos ou a instabilidade daqueles que governam, mas a incapacidade de perceber que alguma coisa essencial desapareceu de sua mesa, e talvez estejamos vivendo precisamente um desses momentos, porque nunca se falou tanto em liberdade, prosperidade, direitos e progresso, enquanto se torna cada vez mais difícil encontrar homens que saibam governar os próprios desejos, famílias que conservem a oração como parte da vida cotidiana e uma sociedade que ainda reconheça a existência de um Bem superior à vontade humana. Talvez esteja faltando vinho ao Brasil.

E não me refiro à bebida que alegra os convidados de um banquete, mas àquilo que o vinho representa na riqueza simbólica da Escritura: alegria, celebração, comunhão e, em determinados contextos, a própria aliança. A imagem é particularmente oportuna neste 12 de outubro, quando a Igreja celebra solenemente Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira de uma nação que nasceu historicamente marcada pela Cruz e que, apesar de suas muitas contradições, recebeu da fé católica uma parte fundamental de sua identidade.

A liturgia de hoje nos conduz primeiramente ao livro de Ester, àquela mulher que, revestida de suas vestes reais, apresenta-se diante do rei para interceder pela vida de seu povo. Ester não procura a corte para satisfazer um capricho pessoal, tampouco utiliza sua posição para aumentar a própria importância; apresenta-se porque há vidas ameaçadas, porque reconhece um bem maior do que sua segurança e porque compreende que a dignidade recebida exige responsabilidade por aqueles que lhe foram confiados.

Séculos depois, encontramos Maria numa festa de casamento em Caná da Galileia. Não está diante de um rei terreno, mas diante daquele cujo Reino não terá fim. E ali, em meio à alegria de uma família que começa sua vida matrimonial, a Mãe percebe aquilo que os convidados talvez ainda não tenham percebido: o vinho acabou.

Há uma delicadeza extraordinária nesse acontecimento. Maria não espera que a vergonha se torne pública, não transforma a necessidade alheia em ocasião para demonstrar sua importância, não faz da dificuldade dos noivos um espetáculo. Simplesmente aproxima-se de Jesus e apresenta a necessidade: “Eles não têm mais vinho.” Eis a grandeza da intercessão mariana. Maria vê a necessidade, apresenta-a ao Filho e conduz os homens à obediência. Sua palavra aos serventes permanece como uma das mais completas sínteses da espiritualidade cristã: “Fazei tudo o que Ele vos disser.”

Talvez seja exatamente essa frase que nossa nação mais precise escutar.

Porque o Brasil também possui suas talhas, seus banquetes, suas celebrações e seus convidados, mas parece frequentemente procurar o vinho onde existe apenas água incapaz de transformar-se por si mesma. Esperamos do Estado aquilo que pertence à Providência, exigimos do mercado uma felicidade que a riqueza não pode oferecer, transformamos candidatos em redentores e ideologias em explicações definitivas da existência, como se bastasse entregar poder a determinados homens para que desaparecessem as desordens que continuam governando o coração daqueles que os elegem. É uma esperança mal colocada.

O dinheiro é um bem, mas não é o Bem supremo. O Estado possui uma finalidade legítima, mas não é salvador. O mercado pode servir à prosperidade material, mas não conhece o destino eterno da alma. A política é necessária à vida comum, mas nenhuma vitória eleitoral possui força para substituir a conversão. E talvez nossa maior confusão esteja precisamente em esperar das estruturas exteriores uma ordem que já não nos preocupamos em cultivar interiormente.

Queremos governantes justos, mas relativizamos a justiça quando ela contraria nossas preferências. Desejamos famílias fortes, mas frequentemente tratamos a fidelidade, a renúncia e a disciplina como fardos excessivos. Reclamamos da corrupção pública enquanto encontramos justificativas para pequenas desonestidades privadas. Exigimos respeito à autoridade, mas resistimos à primeira autoridade que deveria ordenar nossa existência: a Verdade.

Depois perguntamos por que a sociedade está desordenada.

Santo Agostinho compreenderia o problema pela ordem dos amores. O homem não se perde simplesmente porque ama coisas más; frequentemente perde-se porque transforma bens inferiores em fins últimos. Ama o poder acima da justiça, o prazer acima da fidelidade, o reconhecimento acima da verdade, o próprio grupo acima do bem comum e, finalmente, a si mesmo acima de Deus.

Santo Tomás acrescentaria que a vontade tende ao bem apresentado pela inteligência, mas que nossa inteligência pode julgar equivocadamente e apresentar como desejável aquilo que apenas possui aparência de bem. Por isso a formação das virtudes é indispensável: precisamos aprender a conhecer corretamente, escolher prudentemente e agir segundo uma ordem que não inventamos.

As ideologias tornam-se particularmente perigosas quando pretendem ocupar esse lugar, oferecendo ao homem uma explicação fechada da realidade e exigindo que tudo, inclusive a família, a educação, a natureza humana e a própria religião, seja reinterpretado para caber em seus esquemas. E não importa se a promessa vem da esquerda ou da direita. Quando uma ideia exige que a Verdade se curve diante dela, deixou de ser instrumento de compreensão e começou a tornar-se objeto de idolatria.

O cristão não recebeu a missão de encontrar um partido ao qual possa entregar integralmente sua consciência. Recebeu uma missão muito mais exigente: conhecer, amar e servir a Verdade, mesmo quando isso significar contrariar aqueles com quem habitualmente concorda. E é aqui que Nossa Senhora Aparecida se apresenta de maneira particularmente eloquente à história brasileira.

Em 1717, nas águas do Paraíba do Sul, três pescadores encontraram uma pequena imagem da Imaculada Conceição. Não foi uma aparição entre os poderosos, não nasceu de um decreto político nem surgiu como resultado de alguma grande estratégia humana. A devoção cresceu entre pessoas simples, atravessou gerações, entrou nas casas, acompanhou famílias, sustentou orações e tornou-se uma das mais profundas expressões da fé católica em nosso país.

Aquela pequena imagem, retirada das águas, recorda-nos uma verdade que os grandes projetos humanos frequentemente esquecem: Deus não depende da grandeza aparente dos instrumentos para realizar sua obra.

E talvez por isso seja tão significativo que a Padroeira do Brasil seja venerada sob o título da Imaculada Conceição, porque em Maria contemplamos uma criatura inteiramente disponível à graça, uma vontade que não procura substituir a vontade divina, mas acolhê-la, uma liberdade que alcança sua plenitude não quando se emancipa de Deus, mas quando se entrega inteiramente a Ele.

Maria é livre porque pertence inteiramente a Deus. E nós, que tantas vezes confundimos liberdade com independência absoluta, precisamos reaprender essa lição.

A Terra de Santa Cruz recebeu a fé de gerações que construíram igrejas, transmitiram orações, educaram filhos, celebraram sacramentos e conservaram uma tradição que não começou conosco. Essa herança não apaga as injustiças de nossa história, nem autoriza idealizar todos aqueles que a transmitiram. Mas reconhecer suas contradições não exige negar os bens recebidos. Uma civilização madura sabe distinguir aquilo que precisa ser corrigido daquilo que merece ser conservado.

E talvez um dos maiores deveres dos católicos brasileiros seja justamente este: não permitir que a fé recebida de nossos antepassados se transforme apenas numa lembrança cultural, numa festa anual ou num símbolo conveniente para disputas políticas.

A fé precisa continuar viva. Viva no pai que ensina o filho a rezar. Na mãe que apresenta a criança à Virgem Santíssima. No professor que reconhece a educação como formação da inteligência e da vontade. No sacerdote que permanece diante do Sacrário antes de se perder nas exigências do serviço. Na família que encontra tempo para a oração, mesmo quando a rotina parece não permitir. No homem que prefere perder uma vantagem a cometer uma injustiça. Na mulher que permanece fiel ao bem mesmo quando a fidelidade custa.

Porque o cristianismo não se conserva apenas nos discursos daqueles que o defendem. Conserva-se também na vida daqueles que o praticam. E não nos enganemos: não sabemos quais caminhos a Providência permitirá que o Brasil atravesse. Não sabemos quem governará amanhã, quais dificuldades enfrentarão nossas famílias ou quais provações ainda serão impostas à Igreja. Sabemos, entretanto, que a história da salvação jamais foi uma promessa de conforto permanente.


Ester precisou arriscar-se diante do rei. José precisou atravessar a escravidão. Moisés precisou conduzir seu povo pelo deserto. Davi precisou enfrentar o gigante.

Os mártires precisaram permanecer fiéis quando a fidelidade lhes custava a própria vida. E Cristo, para nos salvar, passou pela Cruz. Por isso, talvez nossa oração à Padroeira do Brasil não deva limitar-se ao pedido para que desapareçam nossas dificuldades. Talvez precisemos pedir algo mais profundo: que a graça nos torne capazes de permanecer fiéis quando elas chegarem, que a prudência ilumine nossas escolhas, que a fortaleza sustente nossa vontade, que a temperança governe nossos desejos e que a caridade nos impeça de transformar divergências políticas em ódio aos nossos irmãos.

Neste dia, diante de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, não peçamos simplesmente que o Brasil vença seus adversários. Peçamos que aprenda a vencer suas próprias desordens.

Que nossos governantes reconheçam a justiça como medida do poder.

Que nossos pais e mães recuperem a coragem de educar.

Que nossas famílias voltem a ser escolas de oração, disciplina e caridade.

Que nossos sacerdotes permaneçam fiéis à doutrina e encontrem na contemplação a fonte de seu ministério.

Que nossas crianças recebam não apenas os bens materiais que podemos oferecer, mas também a fé, as virtudes e a esperança que não poderíamos fabricar por nós mesmos.

E que nós, católicos, deixemos de exigir que o mundo inteiro se converta enquanto permanecemos excessivamente ocupados em justificar aquilo que ainda precisa ser convertido dentro de nós.

Porque Maria continua apontando para Cristo.

E Cristo continua sendo o único capaz de realizar aquilo que as talhas, os serventes e os convidados não poderiam realizar por suas próprias forças.

O vinho novo não nasce da soberba de quem acredita poder salvar-se sozinho. Nasce da graça de Deus, acolhida por aqueles que se dispõem a fazer sua vontade.

Talvez esteja faltando vinho ao Brasil. Mas a Mãe continua atenta. E, como em Caná, sua intercessão não termina nela mesma. Ela nos conduz ao Filho e nos recorda, com a serenidade de quem jamais pretendeu ocupar o lugar de Deus, aquilo que nenhuma ideologia, nenhum governo e nenhuma geração possui autoridade para revogar:

“Fazei tudo o que Ele vos disser.”

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, rogai por nós.

Viva Cristo Rei!




Referência e Fundamentos

Ester 5 e 7; João 2,1-11; Santo Agostinho, De doctrina christiana, I; Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, questões 55–67; Catecismo da Igreja Católica, 971, 1803–1845 e 2032–2040. A história da devoção de Aparecida é documentada pelo Santuário Nacional e pelo Vatican News



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