Tudo é uma questão de ordem.
Se observarmos com atenção, perceberemos que aquilo que chamamos de bem e mal não está, na maioria das vezes, na ausência ou presença de algo, mas na forma como esse algo está disposto. O mal, no fundo, não é outra coisa senão um amor desordenado. O homem não deixa de amar quando erra.
Ele ama, mas ama mal.
Ama o que não deveria, ou ama na medida errada, ou ama na direção errada. Busca um bem, sim. Mas um bem menor colocado no lugar do bem maior. E é isso que desorganiza a alma. Porque o universo não é caótico. Ele foi criado com ordem. Criado por Deus, com finalidade.
E se há finalidade, há caminho. E se há caminho, há direção correta. Portanto, viver bem não é inventar um sentido, é alinhar-se ao sentido que já foi dado. É ordenar o amor.
Quando o amor encontra seu centro, e esse centro é Cristo, tudo começa a se ajustar.
O que antes era confuso ganha forma.
O que era disperso encontra unidade.
Amar a Deus acima de tudo não é uma frase piedosa. É uma necessidade estrutural da realidade. Sem isso, tudo se embaralha. Até mesmo na linguagem nós revelamos nossa desordem.
Dizemos, por exemplo, que o Santíssimo Sacramento “fica exposto”.
Mas isso é uma inversão.
Deus não se expõe. Deus é. Quem se expõe somos nós. Quando estamos diante da Eucaristia, seja no ostensório, no altar ou mesmo no silêncio do sacrário, não é Cristo que se coloca diante de nós.
Somos nós que somos colocados diante d’Ele. Somos nós que ficamos nus diante da Verdade. Somos nós que somos iluminados, tocados, julgados e amados. Porque ainda que escondido aos olhos, Cristo não deixa de ser Deus.
E Sua presença não diminui conforme nossa percepção. Ela age. Ela alcança. Ela consome.
Portanto, é sempre o homem que está sendo exposto a Deus. E quando essa ordem se perde, tudo começa a girar em torno do próprio homem.
É daí que nascem frases como:
“O único que poderia me julgar me amou.”
À primeira vista, parece profunda.
Mas, no fundo, ainda coloca o homem no centro. Como se o amor de Deus existisse para validar o homem. Quando, na verdade, o amor de Deus existe para ordená-lo.
Cristo não nos ama para nos confirmar. Cristo nos ama para nos transformar. E isso exige esvaziamento. Exige sair de si. Exige deixar de ser o centro.
Porque enquanto o homem for o fim de si mesmo, ele estará inevitavelmente desordenado. A verdadeira liberdade não está em fazer o que se quer. Mas em querer o que é devido. E isso só acontece quando o amor encontra sua hierarquia.
Quando Deus ocupa o lugar de Deus. E o homem, finalmente, aceita o seu. Tudo é uma questão de ordem.
E ordenar-se é, no fundo, um ato de humildade.



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