domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um café, por favor. Sem açúcar. Ou, Café, Melancia e Carnaval.

Um café — por favor, sem açúcar.

Vai tomar sem açúcar? Essa é a pergunta que mais escuto. A segunda que mais escuto é:

— Tem diabetes, né?

Uma sociedade acostumada a grandes estímulos jamais entenderá um simples café sem açúcar. Pois o que muito se escuta sobre vício em café, na verdade é dependência em açúcar branco, principalmente aquele que sobra no fundo da xícara após o último gole de café. O gosto é peculiar; do tradicional ao premium, o café tem aparência, aroma e gosto específicos. Mas tudo é alterado pelo doce hipercalórico do açúcar.

Café é café. Açúcar é açúcar. Juntos viram garapa.

Ah, mas é cultural. Sim, é. Por isso o espanto ao perceber que, sem açúcar, o café é melhor. E pior, há quem goste e ainda escreva texto dizendo isso.

Açúcar faz mal, mesmo dissolvido no café. É cultural também estar doente em consequência do alto consumo de açúcar. E, por ser cultura, não se pode dizer que açúcar faz mal e não deveria ser consumido? Ah, vá!

Respondendo à segunda pergunta que mais fazem:

— Não.

A amargura deve ser bem-vinda, não obrigada. Principalmente numa sociedade mimada que, ao não ser hiperestimulada, diz-se desmotivada. É sempre necessário ter uma melancia na cabeça para chamar atenção e, quando a rotina pede socorro, por ser sem açúcar, falam mal da disciplina ou de quem toma café sem açúcar. Igual a não pular Carnaval.

— Mas é cultural!

Diabetes também é.

O café amargo não estimula tanto, e qualquer melancia fica muito doce após um café amargo. Mas fica sem gosto após um milk-shake.

Se a segunda-feira é ruim por conta de um fim de semana de festa e hiperestímulos, imagine as semanas após o Carnaval?

Sabe o que é também cultural? Índices de sintomas depressivos após longos períodos de festas regadas a pouco sono e muito álcool.

A melancia perde o gosto. A vida real, muito mais.

Quem come melancia depois de tomar café? E não faz mal?

Milk-shake faz um mal danado. Carnaval também.

Já a realidade faz bem. E pode até parecer amarga, sem gosto. Mas, como o café tem o tradicional, o premium e o gourmet — todos saborosos —, a realidade é linda, e sua amargura pode ser doce se deixarmos o açúcar fora do café.

— Esse café tá sem açúcar?

É uma das perguntas que mais faço.

— Não — é uma das respostas que mais escuto.

Seguida da pergunta:

— Você tem diabetes?

Não.

— Aqui tem melancia?

Nunca tem.

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