sexta-feira, 3 de abril de 2026

A Eternidade, o Tempo e a Eucaristia

O homem mede tudo pelo tempo. Conta dias, horas, sucessões. Pensa em antes e depois. E, por isso, tenta compreender Deus com a mesma régua. Aqui começa o erro.


Deus não está no tempo. O tempo está em Deus.

Como ensina Santo Tomás de Aquino, o tempo é a medida do movimento, e Deus não muda. Logo, não está submetido ao tempo. Cristo, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, age no tempo, mas não é limitado por ele. Ele entra na história, mas não se reduz a ela. Age nos instantes, mas a partir da eternidade.

Por isso, quando diz ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”, não fala como quem calcula horas, mas como quem dispõe da realidade. O erro está em supor que o “hoje” de Cristo depende da nossa sequência temporal. Não depende. Onde Cristo está, a comunhão com Deus se realiza. E essa comunhão não espera três dias, nem segue o relógio humano. Ela acontece porque Ele está presente.

O mesmo erro se repete na Eucaristia. Quando Cristo diz: “Isto é o meu Corpo”, o homem moderno responde: “Não pode ser, porque ainda não aconteceu a cruz.” Mas esse raciocínio revela ignorância metafísica. Cristo não antecipa como quem prevê. Ele torna presente como quem é Senhor. O sacrifício da Cruz é único no tempo, mas eterno em sua realidade. Por isso, pode ser dado antes, durante e depois, sem se repetir, sem se dividir.

Aqui está o ponto: Deus não está preso à sucessão. Ele é o Ato pleno. Ele é o Ser. E aquilo que é pleno não espera, não evolui, não se torna, simplesmente é.

Por isso, a dificuldade do homem não está no mistério, mas na sua própria limitação. Quer entender o eterno com categorias temporais. Quer reduzir o ser ao que aparece. Quer submeter Deus à sua experiência. E assim erra.

A fé não nega a razão. Mas exige que a razão seja elevada. Sem isso, o homem transforma o mistério em símbolo, a presença em lembrança e a palavra de Cristo em metáfora. Mas Cristo não fala como nós. Quando Ele diz “é”, é. Quando Ele diz “hoje”, é hoje. E quando Ele se dá, se dá realmente.

O problema não está no que Cristo disse. Está na tentativa do homem de interpretar Deus sem sair de si mesmo.


“Enquanto o homem pensar o eterno com a lógica do tempo, continuará vendo pão onde Deus disse: ‘É o meu Corpo’.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário