Há uma alegria que nasce do céu e há outra que nasce do excesso.
Nesta noite santa, contemplamos o mistério diante do qual o mundo deveria silenciar:
Deus se fez pequeno, o Eterno entrou no tempo, o Verbo escolheu o silêncio para habitar entre nós.
Nossa alegria verdadeira deveria brotar daqui.
Santo Agostinho nos ensinou que o coração humano é inquieto porque foi criado para Deus.
A sede que carregamos não é defeito, é direção. O problema nunca foi desejar demais,
mas desejar fora da ordem. Buscamos saciedade — e isso é bom. Mas, quando confundimos o Bem com seus reflexos, bebemos águas que não matam a sede. Como um corpo exausto que, em vez de água, recebe álcool: por um instante, a sensação engana; depois, a desidratação se aprofunda. Assim também a alma. No Natal, a sede permanece. Mas, muitas vezes, tentamos saciá-la com ruídos, excessos, estímulos, comidas que ultrapassam a necessidade, bebidas que aquecem o corpo e dispersam o espírito, presentes que provocam euforia breve, registros que pedem aprovação mais do que gratidão.
São Gregório Magno advertia que os vícios não apenas nos desviam, mas nos espalham por dentro.
A alma se dissipa, perde a vigilância, já não consegue permanecer no essencial. Não é que Cristo não nasça. É que a mente, saturada de estímulos, já não sabe percebê-Lo.
O presépio exige sobriedade. O excesso gera distração. E a distração impede o recolhimento onde Deus deseja habitar. Por isso, Gregório falava da necessidade da vigilância interior: uma alma embriagada de barulho não reconhece a visita do Senhor.
Santo Tomás de Aquino nos ajuda a compreender o engano mais profundo: nem todo prazer é alegria. O prazer toca os sentidos; a alegria verdadeira nasce quando a alma encontra o bem para o qual foi criada.
Quando buscamos o prazer como fim, ele deixa de servir ao bem e passa a nos governar. No Natal, podemos sentir muitos prazeres e, ainda assim, não experimentar alegria. Porque a alegria repousa.
E o repouso da alma só acontece quando ela encontra seu fim último. Cristo não veio competir com nossos estímulos. Ele veio ordenar nossos amores.
O Menino de Belém não se impõe. Ele espera. Espera que a alma reconheça sua sede, reduza o ruído, reordene seus desejos. Talvez, nesta noite santa, o maior presente não seja acrescentar algo à mesa,
mas retirar o excesso do coração. Talvez seja beber menos das águas do mundo para finalmente saciar-se da Fonte verdadeira. A sede continuará existindo. Mas hoje, no silêncio do presépio, a Água viva se oferece.
E ela não embriaga.
Ela salva.


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