domingo, 11 de janeiro de 2026

Vida com Sentido - Logos. O homem Criatura que quer ser Criador.

 Quando o homem deixou de se perguntar quem é

Não foi de uma hora para outra. O homem não acordou certo dia e decidiu esquecer Deus, negar a própria natureza ou transformar tudo em ideologia. Isso seria simples demais. O que aconteceu foi mais silencioso — e, por isso mesmo, mais profundo.

Em algum momento da história, o homem deixou de se perguntar o que é e passou a se perguntar apenas como funciona. A realidade deixou de ser algo a ser contemplado e compreendido e passou a ser algo a ser operado. O método ganhou primazia sobre o sentido. A técnica passou à frente da verdade. E, quando isso aconteceu, algo essencial se perdeu.

Durante séculos, o homem se compreendia como criatura. Não no sentido de inferioridade, mas no sentido de pertencimento. Ele recebia o ser, a vida e o fim. Havia uma ordem, uma hierarquia, uma finalidade. Deus não era um “tema religioso”, mas o fundamento último do real. A razão era capaz de investigar o mundo sem expulsar o mistério.

A modernidade muda o eixo. O centro deixa de ser o ser e passa a ser o sujeito. Não importa mais o que algo é, mas se eu posso conhecer, controlar ou usar. Deus não é negado imediatamente, mas vai se tornando dispensável. O mundo funciona mesmo sem Ele. A vida segue. A técnica avança. A pergunta pelo fundamento se torna incômoda.

Esse movimento atinge seu ponto simbólico quando os “direitos do homem” são proclamados sem referência aos direitos de Deus. Não se trata de negar a dignidade humana — ao contrário. Trata-se de um erro mais sutil: separar direitos de deveres, dignidade de verdade, liberdade de natureza. Quando o homem deixa de reconhecer algo acima de si, ele passa a se tornar a medida de todas as coisas. E isso, longe de libertá-lo, o desorienta.

Os direitos de Deus — isto é, o reconhecimento de que o homem não se pertence totalmente — são os deveres do homem. Quando esses deveres desaparecem, os direitos deixam de proteger a dignidade e passam a inflar a vontade. O homem já não sabe quem é, porque já não sabe a quem pertence.

Chegamos, então, ao ápice dessa mudança. O homem contemporâneo tem métodos, mas não tem direção. Tem escolhas, mas não tem critérios. Tem liberdade, mas não sabe para quê. Vive cercado de informações, diplomas, técnicas, dietas, protocolos — e, ainda assim, não se conhece.

Esse mesmo olhar superficial atravessa a religião. A fé passa a ser tratada como procedimento. Os sacramentos, como ritos sociais. A moral, como código de conduta. Pouco se pergunta o que tudo isso realiza no ser. Pouco se pergunta o que transforma, o que regenera, o que eleva. O Batismo, que é novo nascimento e filiação divina, vira opção cultural adiada. Se Deus já não é fundamento do ser, a graça parece apenas um símbolo.

Nesse terreno nasce a briga ideológica dos nossos dias.

De um lado, a cultura progressista e identitária. O homem é visto como construção infinita, produto de estruturas, vítima de opressões. Não há natureza, não há limite, não há verdade anterior ao desejo. A linguagem tenta recriar a realidade. O sofrimento não forma; ele humilha. A cruz não redime; ela ofende. O resultado é um homem extremamente sensível, mas interiormente frágil, incapaz de perseverar, porque nunca aprendeu a lidar com limites.

Do outro lado, o neoliberalismo e certas ideologias de direita. Aqui o homem é visto como indivíduo autônomo, produtor de si mesmo, empreendedor da própria vida. O valor da pessoa é medido por desempenho, eficiência e sucesso. Não há transcendência, apenas performance. O sofrimento não tem sentido; é fracasso pessoal. O resultado é um homem exausto, ansioso, solitário, sempre devendo mais a si mesmo do que consegue pagar.

As duas visões brigam, se acusam, se cancelam. Mas partem do mesmo erro: um homem sem Deus. Um homem que já não se entende como criatura. Um homem sem dever ontológico. Um homem que tenta se salvar sozinho — seja dissolvendo a própria natureza, seja absolutizando a própria autonomia.

Por isso a briga é tão violenta e tão vazia. São projetos diferentes disputando o mesmo vazio antropológico.

É aqui que a Igreja Católica se torna incômoda para ambos os lados. Porque ela não entra no jogo. Ela não oferece uma ideologia concorrente. Ela nega o erro de origem. Afirma que o homem é criatura, ferido, chamado e redimido. Que a liberdade nasce da verdade. Que o dever precede o direito. Que a graça vem antes do desempenho. Que a cruz não é humilhação, mas passagem.

A Igreja não promete um mundo sem sofrimento, nem uma vida de sucesso garantido. Ela promete algo mais difícil e mais verdadeiro: sentido. Filiação. Reconciliação com a realidade.

Talvez o secularismo não termine com uma revolução política, nem com um novo sistema. Talvez ele termine quando o homem voltar a se perguntar, com humildade intelectual, quem ele é. Quando reconhecer que não se explica sozinho. Quando aceitar que ajoelhar a inteligência diante do ser não é regressão, mas lucidez.

Porque o drama do nosso tempo não é falta de liberdade.

É falta de autoconhecimento.

E o homem só se conhece plenamente quando volta a olhar para Deus — não como ideia útil, mas como fundamento do próprio ser.

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