Sobre o Evangelho desse domingo: Mateus 5, 17-37.
Meus irmãos,
muitos cristãos - Católicos em especial - concentram grande parte de sua atenção em alguns mandamentos, sobretudo naqueles que tocam diretamente o pecado pessoal (os 3 últimos para ser mais exato), e vivem perguntando dentro do coração: “Isto é pecado? Até onde vai o limite? Aqui já ofendi a Deus? Acho que não. Vou mais um pouco”. Esse movimento, por si mesmo, não é mau. Pode nascer de uma consciência sincera que deseja o bem, e a tradição espiritual sempre reconheceu no temor do castigo um possível começo de conversão. Mas quando essa preocupação se torna o centro da vida moral, algo mais profundo se revela: a alma ainda não encontrou plenamente o Amor que ordena todos os temores.
Existe uma diferença decisiva entre temer o inferno e temer perder Deus. No primeiro caso, o olhar permanece voltado para si mesmo e no segundo, começa finalmente a voltar-se para o Senhor. No temor servil evita-se o pecado para não sofrer, já no temor filial evita-se o pecado para não ferir Aquele que se ama. Quando a vida espiritual fica presa apenas ao medo, corre-se o risco de uma sutil autorreferência: busca-se mais a própria segurança do que a união com Deus. Não é ainda a soberba aberta, mas uma vaidade espiritual escondida sob a aparência de zelo. A alma vigia a si mesma, mede limites, calcula riscos, mas ainda não se abandonou totalmente em Cristo.
É justamente aqui que o Primeiro Mandamento se torna luz. É o mandamento mais importante, porém também o mais esquecido, por isso, nao se ama o próximocomo a si mesmo. Amar a Deus sobre todas as coisas não significa apenas evitar pecados contra Ele, mas sair de si, esquecer-se, entregar-se. A caridade desloca o centro da alma. Já não se vive principalmente para escapar do fogo, mas para permanecer no Amor. A maturidade cristã acontece nessa passagem silenciosa do medo para a confiança, da vigilância ansiosa, eufórica, para o abandono, da preocupação consigo para o amor de Deus. Então os mandamentos deixam de ser fronteiras ameaçadoras e tornam-se caminhos de comunhão. Evita-se o pecado não apenas porque ele condena, mas porque ele separa; e a maior perda já não é o castigo, mas a distância do próprio Deus.
Entretanto, nesse mesmo caminho espiritual, surge um perigo ainda mais silencioso: o escrúpulo. Diferente do pecado evidente, que muitas vezes conduz ao arrependimento, o escrúpulo aprisiona a alma numa inquietação constante, misturando medo, dúvida e excesso de autorreferência. O escrupuloso deseja acertar, quer agir corretamente, evitar o mal, agradar a Deus, e por isso sua atitude pode parecer zelo; porém, muitas vezes revela uma dificuldade profunda de confiar na misericórdia divina. A alma passa a olhar mais para si mesma do que para o Senhor, pesa intenções, mede faltas, teme cada falha, e sem perceber desloca novamente o centro da vida espiritual. Também Analisa as ações alheias com uma "lupa", perdendo de vista o essencial da caridade.
Saber o que é certo continua sendo necessário. Formar a consciência é indispensável. Aconselhar o bem é parte da caridade, porque a tradição cristã jamais separou verdade de amor. Amar também é orientar, corrigir, iluminar. Mas há uma diferença decisiva entre amar a verdade e julgar sem misericórdia. Quando alguém erra (e todos erramos) a resposta cristã não pode ser o julgamento exagerado, nem contra o outro, nem contra nós mesmos. O olhar sem misericórdia revela mais dureza do que santidade, e a dureza não cura a alma, apenas a fecha.
O Evangelho nos mostra outro caminho. Cristo não relativiza o pecado, mas também não esmaga o pecador. Ele diz: “Vai e não peques mais”, mas antes levanta, perdoa e restaura. A verdade permanece inteira, porém é entregue dentro da misericórdia, pois sem misericórdia, a vida moral torna-se pesada e insuportável, com ela, torna-se caminho real de conversão. Reconhecer o erro sem desespero, corrigir sem humilhar, recomeçar sem perder a esperança, eis o movimento da alma que já não confia apenas em si, mas na graça que a sustenta.
Porque o centro da vida cristã não é a perfeição imediata, mas a confiança perseverante no caminho dela. Deus não nos salva porque nunca caímos, porque nunca peçamos, mas porque voltamos. E so voltamos porque Ele nos chama primeiro.
Já o escrúpulo fixa o olhar na queda, mas a fé fixa o olhar em Deus e, por isso, maturidade espiritual não é nunca errar, mas saber levantar-se com humildade, verdade e confiança na misericórdia que é sempre maior que o nosso pecado.
No fim, toda a moral cristã se simplifica numa única pergunta: não “até onde posso ir sem pecar?”, mas “como posso amar mais?”. É nessa resposta que o coração finalmente descansa, não porque deixou de lutar, mas porque encontrou Aquele por quem vale a pena tudo perder.
Que Deus nos conceda passar do medo para o amor,
da inquietação para a confiança,
e da preocupação conosco mesmos
para a alegria de pertencermos inteiramente a Ele.
Amém.

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