Na Primeira Carta aos Coríntios 1, 26-31, São Paulo faz uma afirmação desconcertante: Deus escolheu aquilo que o mundo considera estúpido, fraco, sem importância e sem serventia para confundir o que o mundo chama de sábio, forte e relevante. Essa não é uma provocação retórica. É uma chave de leitura da história.
A pergunta que surge naturalmente hoje é: o que o mundo considera inútil?
A resposta é incômoda, porque nos envolve diretamente. Para a lógica dominante, são inúteis a oração silenciosa, a contemplação, a paciência, a humildade, a mansidão, a espera, a fidelidade cotidiana, as virtudes vividas sem aplauso. Tudo aquilo que não gera resultado imediato, visibilidade, retorno mensurável ou vantagem prática passa a ser visto como perda de tempo.
Vivemos imersos numa cultura que mede valor por desempenho. O que não “serve para algo” não merece existir. Por isso a oração é tolerada apenas enquanto produz bem-estar psicológico; a virtude é aceita apenas quando gera sucesso; a fé é respeitada apenas quando se mostra funcional. Quando deixam de ser úteis, tornam-se descartáveis.
Essa lógica não está apenas fora de nós. Ela habita o coração humano. Existe em nós uma tendência constante à praticidade, ao atalho, à fuga do caminho lento da conversão. Queremos resultados antes do processo, frutos antes da raiz, glória antes da cruz.
No fundo, trata-se de algo ainda mais profundo: a ânsia de suprir o vazio de Deus sem Deus. Em vez de contemplá-Lo, orar, esperar, ordenar a vida a Ele, queremos logo ocupar o Seu lugar. Queremos o fruto da autossuficiência. Queremos ser eficazes onde deveríamos ser obedientes; protagonistas onde deveríamos ser filhos.
A praticidade, por si só, já é perigosa quando se torna critério último. Mas ela se torna verdadeiramente desordenada quando deixa de ter Deus como fim. A técnica passa a substituir a sabedoria. A ação substitui a contemplação. O fazer substitui o ser.
É por isso que, para a lógica do mundo, praticar virtudes hoje é perda de tempo. Ser paciente parece fraqueza. Ser humilde parece falta de ambição. Ser casto parece repressão. Ser fiel parece ingenuidade. Ser manso parece covardia. Esperar parece atraso.
Mas é exatamente aí que se cumpre a palavra de São Paulo. Deus escolhe o que o mundo despreza para revelar a inutilidade do que o mundo considera importante. As virtudes não são inúteis; inútil é um mundo que perdeu o sentido do fim último.
A oração não “produz” nada visível e, no entanto, sustenta tudo. A contemplação não gera números e, no entanto, reordena a alma. A humildade não constrói currículos e, no entanto, constrói pessoas. A paciência não acelera processos e, no entanto, salva relações.
A lógica invertida do Evangelho
O cristianismo não nega a ação, o trabalho ou a eficácia. Ele apenas recusa fazer deles o absoluto. No Evangelho, o que parece inútil é, na verdade, essencial e o que parece fraco é, na verdade, forte. O que parece vazio é, na verdade, pleno de sentido.
As Bem-aventuranças expressam exatamente essa inversão: felizes não são os mais eficientes, mas os pobres de espírito; não os vencedores imediatos, mas os mansos; não os que dominam, mas os que servem; não os autossuficientes, mas os que têm fome e sede de justiça.
Essa felicidade não é a do conforto breve que o utilitarismo promete, mas a de quem aceitou viver segundo a verdade do próprio fim.
Quando São Paulo fala do que o mundo chama de inútil, ele está apontando para aquilo que não se curva à lógica da utilidade como a oração, contemplação, virtudes e humildade que são consideradas inúteis apenas para um mundo que esqueceu para que existe.
No fundo, o problema não é que o mundo rejeite essas coisas, mas é que, muitas vezes, nós também as rejeitamos, porque exigem tempo, silêncio, espera e conversão. Exigem que deixemos de querer ser deuses para voltarmos a ser criaturas.
E é justamente aí que Deus age: não pelo atalho da praticidade, mas pelo caminho lento, silencioso e aparentemente inútil que conduz, não ao sucesso, mas ao sentido e, finalmente, à verdadeira felicidade.

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