quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

São Tomás de Aquino e a resistência ao pensamento

 Tomás de Aquino é um dos maiores santos e doutores da Igreja. No entanto, curiosamente, ele sempre enfrentou resistência — não apenas fora, mas também dentro dos ambientes eclesiais. E isso não é algo novo.

Ainda jovem, durante seus estudos, São Tomás era conhecido por seu silêncio, sua concentração e seu modo profundamente reflexivo de aprender. Alguns colegas, confundindo silêncio com ingenuidade, decidiram zombar dele. Certo dia, disseram que havia burros voando do lado de fora e pediram que ele se levantasse para ver. Tomás se levantou calmamente. Ao perceber a mentira, respondeu algo que ficou famoso: disse estar mais surpreso por saber que frades eram capazes de mentir do que com a possibilidade de burros voarem.

Esse episódio revela algo importante: desde cedo, Tomás sofreu preconceito não por falta de fé, mas por levar a verdade a sério. Ele acreditava que pensar bem era parte da vida cristã.

Hoje, séculos depois, algo semelhante acontece. Em muitas pastorais e paróquias, existe uma resistência velada — e às vezes explícita — ao pensamento mais profundo, à formação intelectual, à teologia mais exigente. Tudo o que pede estudo, distinção conceitual e paciência é rapidamente rotulado como “difícil”, “frio”, “intelectual demais” ou “pouco pastoral”.

Cria-se, assim, uma falsa oposição: como se pensar fosse contrário à fé simples. Mas São Tomás mostra exatamente o contrário. Para ele, a fé não dispensa a razão; ela a ilumina. Pensar bem é um ato de caridade, porque evita confusões, exageros e erros que acabam ferindo as pessoas.

O problema não é a simplicidade — o problema é a simplificação. São Tomás nunca defendeu uma fé elitista, mas uma fé bem fundamentada, capaz de sustentar a vida cristã no cotidiano. Quando se rejeita o pensamento, abre-se espaço para opiniões rasas, modismos teológicos e discursos frágeis, que não resistem às dificuldades reais da vida.

A resistência a São Tomás hoje não é doutrinal. A Igreja, oficialmente, nunca deixou de indicá-lo como referência segura. A resistência é cultural: vem de um ambiente que prefere o imediato ao profundo, o emocional ao verdadeiro, o slogan à formação.

Celebrar São Tomás de Aquino é, portanto, um lembrete necessário:

a Igreja não cresce afastando-se da razão, mas ordenando a razão à fé.

E talvez, como no tempo dele, ainda nos surpreendamos mais com a recusa de pensar do que com a possibilidade de “burros voarem”.

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