quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Um cristianismo reduzido ao plano político e sociológico, esvaziado da experiência de Deus.

 


Em memória de São Gregório Magno.

O mundo anda apressado. As pessoas correm de um lado para o outro como se a vida fosse uma sucessão de compromissos e reuniões. A pressa entrou em casa, no trabalho e até na Igreja. E, de tanto correr, já não se sabe mais para onde se vai.

Dentro das dioceses e paróquias, a lógica do ativismo também chegou. Planeja-se muito, organiza-se tudo, mas se reza pouco. O silêncio da contemplação foi substituído pelo barulho das agendas. É como se a presença de Deus tivesse virado um detalhe esquecido no meio da pastoral.

Santo Agostinho dizia que não se pode amar o que não se conhece. E São Gregório Magno — cuja memória celebramos hoje — lembrava que da contemplação nasce a verdadeira ação. Mas hoje, muitas vezes, o agir cristão já não nasce da oração, e sim da militância.

Assim, pouco a pouco, o cristianismo vai sendo reduzido ao plano político e sociológico. O discurso gira em torno de estruturas, sistemas, estratégias, lutas sociais. Todas importantes, mas quando se tornam o centro, sufocam a raiz da fé. Esvazia-se a experiência de Deus e o coração da Igreja passa a bater fora de compasso.

É nesse ponto que surgem leituras ideológicas do Evangelho: alguns tentam dizer que o socialismo está no Evangelho, como se fosse preciso reinterpretar a Boa-Nova segundo uma agenda política. Outros, do lado oposto, pregam uma teologia da prosperidade que transforma o seguimento de Cristo em escada para riquezas terrenas. Mas o Evangelho não precisa de ajustes nem de complementos. Ele é completo e perfeito, Palavra eterna de Deus, norma de fé e vida para todo cristão.

O resultado do desvio é uma comunidade ativa, mas cansada; engajada, mas sem alma; barulhenta, mas sem contemplação. Como Marta que se perdeu nas ocupações, mas sem sequer perceber que já não servia ao Mestre, e sim ao ritmo da própria ansiedade.

Um cristianismo que não contempla, que não dobra os joelhos, que não se deixa comover pelo silêncio diante do Santíssimo, corre o risco de transformar-se em mera ONG religiosa. E aí já não se evangeliza, apenas se administra.

Cristo não nos chamou para sermos administradores do sagrado, mas discípulos apaixonados. E só um coração que conhece e contempla pode amar de verdade.

No fundo, a pergunta permanece ecoando: será que não estamos ocupados demais para escutar Aquele que dá sentido a tudo?



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